Justiça condena Airbus e Air France pelo acidente do voo Rio-Paris em 2009
A Justiça francesa declarou, nesta quinta-feira (21), a Air France e a
fabricante Airbus culpadas de homicídios culposos, 17 anos após o
acidente do voo Rio-Paris que matou 228 pessoas.
O Tribunal de Apelação de Paris se pronunciou de maneira contrária à
decisão dos magistrados de primeira instância que, em 2023, decidiram
absolver as empresas.
A nova sentença as considera as “únicas responsáveis” pela maior
tragédia da aviação francesa e, além disso, impõe a multa máxima de
225.000 euros (260.000 dólares, 1,3 milhão de reais).
Em 1º de junho de 2009, o avião que operava o voo AF447
entre o Rio de Janeiro e Paris caiu durante a noite quando sobrevoava o
Oceano Atlântico, algumas horas após a decolagem.
A bordo do avião, um A330 da Airbus, viajavam passageiros de 33
nacionalidades, incluindo 61 franceses e 58 brasileiros. A tripulação de
12 pessoas era integrada por 11 franceses e um brasileiro.
O tribunal correcional de Paris absolveu, em abril de 2023, a Airbus e
a Air France da acusação penal de homicídio culposo, como havia sido
solicitado pelo Ministério Público, embora tenha reconhecido sua
responsabilidade civil.
Os magistrados consideraram na ocasião que, embora tenham cometido
“imprudências” e “negligências”, “não foi possível demonstrar (…) nenhum
nexo causal seguro” com o acidente.
O MP, no entanto, mudou de posição e pediu em novembro do ano passado
ao tribunal de apelação de Paris que condenasse as duas empresas “por
homicídios culposos”.
Durante o julgamento, Airbus e Air France se defenderam de qualquer
responsabilidade penal e atribuíram o ocorrido às decisões equivocadas
tomadas pelos pilotos em uma situação de emergência.
As caixas-pretas confirmaram a origem do acidente: o congelamento das
sondas Pitot, que medem a velocidade do avião no exterior, enquanto o
A330 voava em grande altitude, em uma zona meteorológica difícil,
próxima da Linha do Equador.
O MP identificou erros da Airbus e da Air France que “contribuíram, de forma certa, para que o acidente aéreo acontecesse”.
Para a acusação, a Airbus subestimou a gravidade das falhas das
sondas anemométricas e não adotou as medidas necessárias para informar
com urgência as companhias aéreas que utilizavam o sistema.
A Air France foi criticada por não ter fornecido aos pilotos um
treinamento adequado sobre situações de congelamento das sondas Pitot e
não ter informado suas tripulações de maneira suficiente.
“Esta condenação lançará o opróbrio, um descrédito sobre as duas
empresas, e deve soar como uma advertência”, ressaltou em novembro o
promotor Rodolphe Juy-Birmann, ao lado de sua colega Agnès Labreuil.
Os dois promotores criticaram as empresas na época: “Não houve nada, nenhuma palavra de consolo sincero”.
“Uma única palavra resume todo esse circo: indecência”, acrescentaram.