Um clérigo muçulmano
xiita observa durante uma manifestação em solidariedade ao Irã e
denunciando a guerra entre EUA e Israel contra o país, na cidade de
Basra, no sul do Iraque
O Irã acusou os Estados Unidos de violarem o frágil cessar-fogo nesta terça-feira (26), após bombardeios de Washington atacarem locais de lançamento de mísseis e embarcações iranianas durante a noite. Os ataques podem comprometer os esforços para pôr fim à guerra.
O cessar-fogo acordado em 8 de abril
entre os Estados Unidos e o Irã foi seguido por semanas de impasse e
ameaças, até que ambos os lados relataram progresso nas negociações nos últimos dias.
No entanto, as esperanças de paz foram frustradas pelo anúncio de Israel de que intensificaria sua ofensiva no Líbano
e pelo ataque dos EUA ao Irã. Segundo o Comando Central dos EUA
(Centcom), o ataque desta terça-feira teve como alvo locais de
lançamento de mísseis iranianos e embarcações que tentavam instalar
minas.
De acordo com a agência
marítima britânica UKMT, uma “explosão externa” danificou um petroleiro
na costa de Omã, mas tanto a tripulação quanto a embarcação estão em
segurança.
A mídia estatal iraniana relatou explosões noturnas em Bandar Abbas, uma cidade costeira no sul do país, perto do Estreito de Ormuz. A Guarda Revolucionária do Irã afirmou que suas forças derrubaram um drone americano que violou seu espaço aéreo e também dispararam contra um caça F-35.
“O exército terrorista dos EUA, que
continua suas ações ilegais e injustificadas desde o cessar-fogo (…),
cometeu uma grave violação do cessar-fogo na província de Hormozgan nas
últimas 48 horas”, afirmou o Ministério das Relações Exteriores do Irã
em um comunicado. A chancelaria acrescentou que o Irã “não deixará
nenhum ato hostil sem resposta e não hesitará em se defender”, sem
fornecer mais detalhes.
Restabelecimento “parcial” da internet
O líder supremo Mojtaba Khamenei afirmou em um comunicado transmitido pela televisão estatal que Washington está perdendo influência e se afastando “cada vez mais de seu antigo status” no Golfo Pérsico.
“Os Estados Unidos não têm mais um
lugar seguro na região para lançar suas agressões”, avaliou Khamenei,
que não aparece em público desde que assumiu o cargo no início de março,
sucedendo ao seu pai, assassinado no primeiro dia da guerra.
Segundo ele, os países do Golfo,
atacados quase diariamente pelo Irã em represália à ofensiva
israelense-americana iniciada em 28 de fevereiro, “não servirão mais de
escudo para as bases americanas”.
Desde o início da guerra, as autoridades iranianas cortaram completamente o acesso à internet, mas a conexão foi “parcialmente” restaurada, segundo indicou nesta terça-feira a organização especializada Netblocks.
No entanto, a organização observou que “não está claro” se a conexão será mantida após o “mais longo” apagão nacional da história.
O vice-presidente iraniano, Mohammad Reza Aref, afirmou que o governo
tomou as primeiras medidas para restabelecer o acesso à internet.
Negociações avançam
Na frente diplomática, autoridades
iranianas, entre eles o principal negociador, Mohammad Bagher Ghalibaf, e
o ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, viajaram na
segunda-feira para Doha em sua primeira visita desde o início da guerra.
“Chegamos a uma conclusão sobre
grande parte dos temas em discussão”, declarou no mesmo dia o porta-voz
do Ministério iraniano das Relações Exteriores, Esmaeil Baqaei. “Mas
dizer que isso significa que a assinatura de um acordo é iminente (…),
ninguém pode fazer tal afirmação”, acrescentou.
O secretário de Estado americano, Marco Rubio, assegurou durante uma visita oficial à Índia que o acordo continua sendo possível e mencionou negociações “sobre a linguagem específica no documento, então isso levará alguns dias”.
Segundo a agência de notícias Tasnim, as negociações em curso também incluem o pedido do Irã para liberar cerca de 24 bilhões de dólares (120 bilhões de reais) em bens congelados no exterior como parte do processo para pôr fim à guerra.
Donald Trump busca uma saída para
essa guerra, que perturbou gravemente a economia mundial devido ao
bloqueio iraniano do estratégico Estreito de Ormuz, por onde costuma
transitar um quinto das exportações globais de petróleo e gás natural
liquefeito.
Negociações para reabertura
Por outro lado, as esperanças de um acordo sofreram mais um revés quando o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, prometeu na segunda-feira “esmagar” o movimento islamista libanês Hezbollah, apoiado por Teerã.
O Irã exigiu que qualquer acordo de paz também se aplique aos combates no Líbano. Nesta terça-feira, Israel pediu a evacuação da cidade de Nabatiyeh, no sul do Líbano, em antecipação a novos ataques.