De acordo com a plataforma
israelense de jornalismo investigativo Shomrim, a Prefeitura de
Jerusalém está envolvida em "negociações secretas" com a Igreja
Católica, a Igreja Ortodoxa Grega e a Igreja Ortodoxa Armênia para
exigir o pagamento de impostos municipais sobre as propriedades que
essas instituições possuem na cidade.
A
prefeitura da cidade sagrada para cristãos, muçulmanos e judeus cobra o
pagamento de "centenas de milhões de shekels das principais
denominações cristãs referentes a impostos municipais sobre
propriedades", informou a Shomrim.
Cada
uma das Igrejas negocia separadamente. A Igreja Católica, por exemplo,
contratou uma empresa de lobby dos Estados Unidos para representá-la nas
negociações.
A
investigação aponta que as conversas estão sendo conduzidas "sob os
auspícios do Ministério das Relações Exteriores" de Israel, já que o
caso tem forte impacto diplomático. Muitas das propriedades em questão
estão localizadas em áreas conquistadas por Israel durante a Guerra dos
Seis Dias, em 1967.
Nesse
contexto, o pagamento de impostos à Prefeitura de Jerusalém poderia ser
interpretado como um reconhecimento da soberania israelense sobre
Jerusalém Oriental.
Neste
momento, as propriedades das Igrejas estão sendo inventariadas enquanto
as partes tentam definir quais imóveis estarão sujeitos à cobrança e se
haverá pagamento retroativo.
As
Igrejas são isentas do pagamento de impostos sobre propriedades com
base em uma lei criada durante o Mandato Britânico da Palestina
(1922-1948), que concede isenção tributária a instituições religiosas,
educacionais e de saúde.
Nos
últimos anos, porém, as prefeituras de Tel Aviv, Nazaré, Ramla e
Jerusalém passaram a cobrar impostos sobre esse tipo de imóvel,
provocando uma reação das Igrejas cristãs de Jerusalém.
Em
1º de julho de 2024, líderes cristãos enviaram uma carta ao
primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, classificando essas
medidas como um "ataque coordenado à presença cristã na Terra Santa",
segundo reportaram, na época, veículos como o Times of Israel.
"Neste
momento em que o mundo inteiro, e especialmente o mundo cristão,
acompanha de perto os acontecimentos em Israel, nos vemos novamente
diante de uma tentativa das autoridades de expulsar a presença cristã da
Terra Santa", escreveram os líderes religiosos, entre eles o Patriarca
Latino de Jerusalém, cardeal Pierbattista Pizzaballa.
No
ano passado, a Prefeitura de Jerusalém foi além e bloqueou as contas do
Patriarcado Ortodoxo Grego, medida que levou o Ministério das Relações
Exteriores da Jordânia a condenar a decisão.
Em
resposta à reportagem da Shomrim, a Prefeitura de Jerusalém divulgou
uma nota afirmando que mantém um "diálogo com os representantes das
igrejas da cidade para resolver definitivamente a questão das dívidas
relacionadas ao imposto sobre propriedades que não são utilizadas como
locais de culto, além de obter a documentação necessária das
instituições que têm direito a descontos ou isenções".
Documentos
obtidos pela Shomrim por meio de uma fonte envolvida nas negociações
revelam que foram agendadas reuniões com políticos norte-americanos,
incluindo representantes do líder democrata no Senado, Chuck Schumer; do
presidente republicano da Câmara dos Representantes, Mike Johnson; do
senador democrata Chris Van Hollen; e do embaixador de Israel nos
Estados Unidos, Yechiel Leiter. Os encontros foram organizados pela
Livingston Group, empresa de lobby sediada em Washington e contratada
pela Igreja Católica.
Segundo
os documentos, a cobrança dos impostos municipais foi um dos principais
temas discutidos nessas reuniões, que também abordaram episódios
recentes de "judeus israelenses assediando e até atacando cristãos na
Terra Santa".
A
violência contra cristãos na Terra Santa tem aumentado nos últimos
tempos. No início do mês passado, representantes de diferentes
comunidades cristãs denunciaram a escalada da violência e da pressão
sobre os cristãos em Israel.
A
diretora do Centro Inter-religioso Rossing para Educação e Diálogo,
Hana Bendcowski, apresentou um relatório que documenta 155 incidentes
contra cristãos em território israelense ao longo de 2025, incluindo 61
agressões físicas, 52 ataques contra propriedades da Igreja, 28 casos de
assédio e 14 atos de vandalismo contra placas e símbolos cristãos.
O
relatório destaca que os ataques atingem principalmente membros do
clero, que relatam episódios frequentes de cusparadas, insultos e
assédio cotidiano. Essa situação tem aumentado entre os cristãos a
percepção de que são cidadãos cada vez menos aceitos, levantando dúvidas
sobre o futuro dessas comunidades na região.
Jerusalém
Oriental é a parte da cidade que abriga a Cidade Velha e alguns dos
locais mais sagrados para judeus, muçulmanos e cristãos, como o Muro das
Lamentações, a Esplanada das Mesquitas e a Igreja do Santo Sepulcro.